Livros e Tinta

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quinta-feira, 4 de março de 2010

José Mindlin - um apaixonado pelos livros



Ter, 02 de Março de 2010 07:56 Colaboradores TOQUE RÁPIDO

Um apaixonado pelos livros

Jaime Leitão

Nunca ouvi falar de ninguém que tivesse mais paixão pela leitura e pelos livros do que o empresário José Mindlin, que morreu anteontem aos 95 anos. Morreu, mas continuará vivo em sua biblioteca de mais de 30.000 volumes, que ele doou à USP e que será disponibilizada em breve a professores e pesquisadores, em um prédio que está sendo construído especialmente para abrigá-la. Esse acervo representa praticamente a metade da sua coleção extraordinária. Colecionar livros é diferente de colecionar outros objetos, porque cada bom livro guarda em si um universo.
A alegria de viver de Mindlin vinha dessa ligação mágica com a literatura, a filosofia; cada livro para ele representava um mergulho, uma viagem profunda e incrível a mundos intocáveis antes da primeira página aberta.
Ele era um bibliófilo na real acepção do termo. Não apenas colecionava livros, mas também os lia com o afeto de quem sabe que eles são a grande porta para o conhecimento e a cultura.
Era empresário, mas a sua grande empresa foi comprar livros e divulgar em palestras a importância de ter com eles uma relação de convivência constante e mágica. Procurou sempre sensibilizar empresários e políticos a disponibilizar à população o maior número de títulos de qualidade porque sabia que um país onde a leitura não é valorizada está condenado ao obscurantismo e à violência, promovidos pela ignorância e a massificação.
Que a morte de Mindlin faça acordar outros empresários, que poderiam muito bem seguir o seu legado e doar pequenas bibliotecas a bairros carentes das nossas cidades para, a longo prazo, promover a verdadeira revolução que se dá pela via da leitura.
Sem leitura nada melhora. Um escritor, antes de tudo, é um leitor. E um leitor consciente sabe avaliar a importância de um livro. Mindlin cuidava dos seus milhares de livros com o máximo apreço, mantendo-os em um ambiente na temperatura ideal, e em condições que os livravam dos seus inimigos mortais: as traças e os cupins.
Mindlin possuía obras raras, primeiras edições de muitos autores, pelos quais pagava preço incalculável. A sua fortuna era gasta a maior parte com esse objeto vivo e pulsante que é o livro. Em seu livro de memórias “Uma Vida Entre Livros”, o autor afirmou que essa sua ligação tão forte com os livros era uma doença, “mas uma doença que me fazia sentir bem, ao contrário das outras, e que, além do mais, é incurável.
Precisamos no Brasil disseminar essas “boas doenças”: paixão pelos livros, pela leitura, a arte, a inteligência. Quando alguém passa a ler, a se interessar pela cultura, fica tomado por esse hábito, por essa mania, e felizmente nunca se livrará mais deles. Para que isso aconteça, precisamos de várias cabeças e corações como os de José Mindlin para espalhar a educação em escala gigantesca por esse país tão carente de livros e de leitura.

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